Propriedade Intelectual

Como funciona o registro de marca no INPI? Entenda a linha do tempo e fases críticas

Escrito por João Pedro Fernandes, advogado especialista em propriedade intelectual para fintechs e empresas de tecnologia na NDM Advogados. Desde 2014 oferecemos assessoria jurídica completa para empresas tech crescerem com segurança e poderem focar no que importa.

Atualizado em 14/09/2026

O registro de marca no INPI é um procedimento administrativo complexo que leva, em média, de 12 a 18 meses se não houver interferências de terceiros. A jornada possui as seguintes etapas: inicia-se com o Depósito e o Exame Formal, seguindo para a Publicação na Revista da Propriedade Industrial (RPI), que ocorre sempre às terças-feiras.

A partir dessa publicação, abre-se uma janela crítica de exatos 60 dias para a oposição, momento em que terceiros podem contestar a sua marca ou você pode agir contra concorrentes. Após essa fase, ocorre o Exame de Mérito e, se deferido, a Concessão. Perder prazos, como os de manifestação à oposição,exigências do órgão ou eventual recurso contra o indeferimento pode resultar no arquivamento definitivo do processo, exigindo um rebranding forçado e gerando altos custos jurídicos para o seu negócio. 

No Brasil, segundo a Lei da Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/1996), a marca não pertence a quem a criou ou utilizouprimeiro, nem a quem registrou o domínio na internet ou possui razão social semelhante, mas sim a quem a registra primeiro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Uma empresa sem marca registrada é como um cofre aberto: qualquer concorrente pode se apropriar do nome, pegar carona na sua reputação e proibir você de usar a própria marca. Por isso, iniciar e monitorar esse processo é uma obrigação estratégica. 

Quais são as etapas e a linha do tempo de um processo no INPI?

Protocolar o pedido não quer dizer que a marca já é sua. O protocolo garante a sua prioridade: se alguém pedir um nome igual ou parecido depois de você, o seu pedido vem na frente. . O processo no INPI é, na verdade, um procedimento administrativo complexo, composto por fases rígidas, análises técnicas rigorosas e janelas de tempo definidas e que, caso perdidas, jogam todo o procedimento fora.

Por outro lado, não protocolar o pedido significa viver em constante risco. Se um concorrente pedir o registro de um nome parecido com o seu antes de você, ele pode questionar o seu uso. 

Vale destacar que o ecossistema brasileiro de negócios digitais é extremamente ágil. Se a sua empresa ganha tração, ela rapidamente entra no radar de “piratas de marcas” ou até de concorrentes legítimos que podem ter tido uma ideia semelhante. Por isso, a proatividade no início do processo não é um luxo, é sobrevivência.

A linha do tempo de um registro de marca no INPI

Para que você, como tomador de decisão, possa gerenciar os riscos do seu negócio, é fundamental visualizar a jornada completa da sua marca dentro da autarquia.

A tabela a seguir consolida as etapas principais do processo no INPI, preparando você para entender os momentos em que a sua ação, ou a falta dela, determinará o sucesso ou o fracasso do registro.

Etapa do ProcessoO que acontece na práticaPrazo estimadoNível de Atenção do Empresário
DepósitoProtocolo do pedido e geração da expectativa de direito e prioridade.Imediato após o pagamento da GRU referente à taxa de depósito.Baixo (apenas aguardar)
Exame FormalINPI verifica se documentos e taxas estão corretos.Algumas semanasAlto, pois em caso de exigência, o prazo de cumprimento é de apenas 5 (cinco) dias, o que pede uma rápida atuação.
Publicação na RPIO pedido se torna público para o mercado.Entrede 2 e 6 semanasBaixo
OposiçãoJanela para terceiros contestarem sua marca.Exatos 60 diasCrítico
Exame de MéritoO INPI julga se a marca pode ser concedida ou não.Meses a mais de um anoMédio, uma vez que em caso de indeferimento é aberto o prazo de 60 (sessenta) dias para apresentação de recurso.
ConcessãoExpedição do certificado pelo INPI.Cerca de 60 dias após deferimentoMédio

O guia abaixo mostra o caminho completo de um pedido de marca no INPI, com os prazos de cada etapa. Nas próximas seções, explicamos cada uma delas:

1. Depósito e a ilusão da segurança instantânea

O momento do depósito é cercado de alívio para muitos empresários, mas é preciso ter cautela. Como vimos, enviar o pedido inicia o processo no INPI, mas não encerra a questão. A partir desse momento, o órgão fará um exame formal, conferindo se os dados da sua empresa, a especificação das atividades (a famosa classificação de Nice) e o pagamento das taxas estão de acordo.

Com a tabela de retribuições que entrou em vigor em 2025, a taxa de concessão passou a ser paga junto com a de depósito, numa guia só. Isso deixa um erro no pedido mais caro do que antes. Se a marca for protocolada na classe errada, é preciso fazer um novo pedido, que agora custa quase 4 vezes mais que no passado, além de abrir mão da data de prioridade do pedido original.

2. A Publicação do pedido

Se o exame formal for aprovado, o seu pedido avança para a fase de publicação. É aqui que o jogo realmente começa. O INPI torna o seu pedido público para que qualquer pessoa, empresa ou concorrente no Brasil  tome conhecimento de que você deseja ser o dono exclusivo daquela expressão ou logotipo.

Muitas empresas e escritórios acompanham essas publicações para encontrar pedidos parecidos com as marcas que já têm. Quem entender que o seu pedido conflita com a marca dele tem 60 dias, contados da publicação, para apresentar oposição. Por isso vale acompanhar a revista também do seu lado, porque, se chegar uma oposição, você tem prazo para responder. 

Por que acompanhar a RPI toda terça-feira?

Depois de publicado, o pedido ainda pode levar meses até a decisão final, e nesse tempo toda comunicação oficial do INPI sai na RPI, às terças. Por isso vale criar o hábito de conferir o número do processo toda semana, na própria revista ou no Busca Web, a base de dados do INPI.

Um caso comum: durante o exame, o INPI publica uma exigência pedindo um documento ou um ajuste na especificação. Você tem 60 dias para responder. Se ninguém vê a publicação e o prazo acaba, o pedido é arquivado, e você pode ter que começar de novo, com outro pedido e outra data de prioridade.

O que é o prazo de oposição e como defender a sua marca no INPI? 

Depois que o pedido é publicado na RPI, começa o prazo de oposição, previsto no artigo 158 da Lei de Propriedade Industrial. Durante 60 dias, qualquer pessoa ou empresa que ache a sua marca parecida demais com a dela pode pedir ao INPI que negue o registro. A semelhança pode estar no som, na grafia ou até mesmo na ideia que o nome passa.

Receber uma oposição não significa que o pedido está perdido. A oposição é publicada na RPI e, a partir dessa publicação, você tem mais 60 dias para apresentar uma manifestação à oposição, que é a sua resposta aos argumentos da outra parte. Ela não é obrigatória, mas quem não responde deixa o examinador decidir conhecendo só a versão do opositor, além de indicar tacitamente que não possui elevado interesse na proteção do ativo, tendo em vista a omissão da defesa.

Uma boa manifestação mostra por que as duas marcas podem conviver no mercado sem confundir o consumidor. Os argumentos mais comuns são três. As empresas podem atuar em segmentos diferentes. A parte em comum entre os nomes pode ser um termo genérico do setor, como “pay” ou “tech”, que ninguém pode usar com exclusividade. Ou o conjunto da marca, com nome, grafia e identidade, pode ser diferente o bastante. Em alguns casos também dá para negociar com o opositor um acordo de coexistência, em que as duas empresas definem como cada uma vai usar a sua marca.

A oposição e a manifestação são analisadas juntas no exame de mérito, quando o INPI decide se concede o registro.

O mesmo prazo vale no sentido contrário. Se um concorrente pedir o registro de uma marca parecida com a sua, é nesses 60 dias que você pode se opor. Perdido esse prazo, o caminho é esperar a concessão e pedir a anulação do registro, no próprio INPI por meio de um Processo Administrativo de Nulidade (PAN) ou na Justiça, o que costuma ser mais demorado, caro e muitas vezes possuir um grau de eficácia menor.

3. E se o pedido for indeferido? 

O indeferimento não encerra o processo de imediato. A partir da publicação da decisão na RPI, você tem 60 dias para apresentar um recurso. Ele é examinado por uma área de segunda instância do INPI, que é composta por analistas mais experientes, e decidido pelo presidente do órgão. Enquanto o recurso está em análise, o indeferimento fica suspenso.

O primeiro passo é ler a decisão com atenção, porque ela diz exatamente por que o pedido foi negado, e o recurso precisa responder a esse motivo. Nas empresas de tecnologia, os motivos mais comuns são dois: a marca foi considerada parecida demais com outra que já estava registrada ou pedida, ou o nome foi visto como descritivo, ou seja, apenas descreve o produto ou serviço.

Quando o problema é a semelhança com outra marca, há alguns caminhos:

  • O conjunto das marcas é diferente. Mostrar que o som, a grafia e a ideia transmitida por cada nome não se confundem.
  • Os mercados não se cruzam. Ainda que as marcas estejam na mesma classe, as empresas podem atuar em mercados distintos, com públicos e produtos que não se misturam.
  • O termo em comum é de uso geral no setor. Um exemplo são palavras como “pay”, “cash” ou “tech” no mercado financeiro. Nesse caso, ajuda mostrar outras marcas registradas que já convivem com esse termo.
  • A marca citada perdeu força. Vale conferir a situação atual dela. Se ela foi extinta ou o pedido anterior foi arquivado, isso deve constar no recurso. Se ela não é usada há mais de cinco anos, dá para pedir a caducidade do registro em um procedimento separado, o que pode tirar o obstáculo do caminho.
  • Há um acordo com o titular. Um acordo de coexistência também pode ser apresentado.

Quando o problema é o nome ter sido considerado descritivo, o argumento central é mostrar que ele sugere a atividade da empresa sem descrevê-la diretamente. Também conta a combinação de termos ou a grafia ter criado algo com identidade própria. Um nome que só evoca a ideia do serviço tem mais chance de ser aceito do que um que diz literalmente o que a empresa faz. Além disso, pedidos que contenham logotipo tendem a ser mais protegidos desse indeferimento, visto que são revestidos de “suficiente forma distintiva” por possuírem o elemento figurativo.

Alguns argumentos costumam pesar pouco, como o quanto a empresa já investiu no nome ou o fato de não conhecer a outra marca antes do pedido. A análise do INPI é sobre o risco de confusão ou a falta de distintividade, não sobre o esforço de quem pediu.

Outros interessados, como quem apresentou oposição, também podem se manifestar sobre o recurso. O INPI reanalisa o pedido por inteiro, então o indeferimento pode ser revertido, mas também pode ser mantido por um motivo diferente do original. Se o recurso for aceito, o registro é concedido na sequência. Se não for, a discussão no INPI termina e resta levar o caso à Justiça.

4. O custo real de negligenciar a proteção da sua marca

Muitos empresários justificam o adiamento do registro de marca dizendo que “ainda estão testando o MVP” ou que “é um custo alto para o momento”. Porém, a matemática do risco prova exatamente o contrário.

Se você perder a marca por negligência em um processo no INPI, os custos ocultos são devastadores. Primeiramente, há o custo jurídico de tentar reverter a situação, o que nem sempre é possível. Em segundo lugar, existe o risco real de ter que pagar indenizações por uso indevido de marca, que podem chegar a porcentagens substanciais do faturamento da sua empresa.

Por fim, um rebranding forçado também tem um alto custo. Trocar o nome de uma plataforma de tecnologia envolve refazer a identidade visual, migrar o domínio do site, atualizar o nome dentro do produto e nas lojas de aplicativos e refazer os materiais de marketing. A migração do domínio costuma custar parte do tráfego orgânico, mesmo com redirecionamentos. Também é preciso investir para que clientes e parceiros reconheçam a empresa pelo nome novo. .

Diante disso, tratar a proteção intelectual como um pilar financeiro da empresa é o que diferencia negócios fadados ao amadorismo das corporações prontas para receber aportes e liderar mercados.

Conclusão

Compreender a anatomia de um processo no INPI é assumir o controle estratégico da sua empresa. Como vimos, a linha do tempo da proteção intelectual não aceita amadorismo: o relógio começa a contar no depósito, acelera a cada terça-feira com a publicação da RPI e tem seus momentos de vida ou morte nos prazos de oposição e recurso.

Para empresas de tecnologia, startups e negócios que integram IA, onde a inovação é rápida e a concorrência é global, deixar a proteção da sua marca contando com a sorte é o pior erro de gestão possível. O silêncio diante de uma exigência ou a perda da janela de 60 dias custam, invariavelmente, dinheiro, mercado e reputação.

Ao integrar ferramentas adequadas e apoio especializado, você transforma a burocracia governamental em um ativo de segurança. Afinal, a verdadeira inovação não está apenas em criar o melhor produto, mas em ter a inteligência de garantir que ele seja legalmente e exclusivamente seu. A sua marca é o contrato de confiança com o seu cliente, não deixe que prazos perdidos quebrem esse vínculo.

FAQ

Quanto tempo demora, em média, um processo no INPI do início ao fim?

Atualmente, se não houver oposição de terceiros ou exigências do órgão, um processo no INPI leva em média de 12 a 18 meses para ser deferido. Caso ocorram interferências, o prazo pode se estender consideravelmente.

O que acontece se eu perder o prazo de 60 dias para oposição?

Se você perder o prazo, o pedido do seu concorrente seguirá para o exame de mérito sem os seus argumentos contra ele. Caso a marca seja concedida, a única forma de tentar revertê-la será através de um Processo Administrativo de Nulidade (PAN) ou de uma ação judicial, procedimentos mais complexos e caros.

Por que a RPI é publicada especificamente às terças-feiras?

A publicação da Revista da Propriedade Industrial (RPI) às terças-feiras é uma regra administrativa e histórica do próprio Instituto Nacional da Propriedade Industrial. É o marco legal que inicia a contagem de todos os prazos do sistema de marcas no Brasil.

Outra empresa tem um nome parecido, mas atua em uma área diferente. Posso registrar a minha marca?

Sim, em muitos casos. O sistema brasileiro adota o Princípio da Especialidade, o que significa que marcas semelhantes podem coexistir desde que atuem em nichos de mercado (classes do INPI) diferentes e não causem confusão no consumidor, exceto nos casos de “marcas de alto renome”, que são marcas que, por sua magnitude, tem sua proteção estendida a todo mercado, como Playstation ou Coca-Cola.

É obrigatório ter um advogado para iniciar o processo no INPI?

Não é obrigatório, qualquer pessoa física ou jurídica pode realizar o depósito. No entanto, devido à complexidade da Lei nº 9.279/1996, aos prazos fatais da RPI e às nuances das manifestações e oposições, a assessoria especializada reduz drasticamente o risco de perda do registro e economiza dinheiro a longo prazo.

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