Passo a passo do alvará judicial para menores: como funciona o processo para conseguir a liberação de um menor para publis?


Escrito por Amanda Santos, advogada especialista em proteção de dados e LGPD para empresas de tecnologia e fintechs na NDM Advogados.
Desde 2014 oferecemos assessoria jurídica e contábil completa para empresas tech crescerem com segurança e poderem focar no que importa.
Atualizado em 13/08/2026
No cenário atual de hiperconexão, onde crianças e adolescentes constroem impérios digitais da noite para o dia, muitas marcas e plataformas de tecnologia agem por impulso. Elas fecham contratos, enviam produtos e programam pagamentos como se estivessem lidando com adultos. O que poucos percebem é que, no Brasil, a monetização do conteúdo infantojuvenil esbarra em regras rigorosas de proteção.
É aqui que o alvará judicial para menores em publis deixa de ser apenas um jargão jurídico e se torna o principal pilar de compliance da sua empresa. Sem ele, a sua campanha inovadora pode se transformar em um desastre de relações públicas, com multas altíssimas e contratos anulados. Se a sua empresa de tecnologia ou agência lida com a creator economy, entender esse passo a passo não é opcional – é uma questão de sobrevivência no mercado.
O mercado mudou drasticamente. Há alguns anos, a publicidade com crianças se restringia a comerciais de televisão superproduzidos por grandes agências. Nesses casos, o departamento jurídico tradicional já sabia exatamente quais portas bater para conseguir as liberações necessárias.
Por outro lado, a descentralização trazida pelas redes sociais e pelas plataformas de marketing de influência mudou a dinâmica. Hoje, empresas de software (SaaS), fintechs e plataformas de e-commerce fecham parcerias com influenciadores mirins diretamente por meio de plataformas automatizadas.
Isso significa que a velocidade da contratação aumentou, mas a legislação continua exigindo o mesmo rigor. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição Federal proíbem o trabalho infantil no Brasil. No entanto, a lei abre uma exceção para o chamado “trabalho infantil artístico”, desde que haja uma autorização prévia e expressa de um juiz.
Na prática, quando uma criança faz uma “publi” (publicidade) remunerada, seja em dinheiro, seja em permuta de alto valor, ela está exercendo uma atividade econômica. Para a lei, isso é trabalho. E para que esse trabalho seja lícito, o alvará judicial é o único caminho aceitável para proteger o menor, a família e a sua empresa.

Muitos empresários do setor de tecnologia e inovação subestimam o peso da Justiça da Infância e da Juventude. Acreditam que o risco recai inteiramente sobre os pais da criança influenciadora. Esse é um erro estratégico que pode custar milhões ao seu negócio.
De acordo com o entendimento dos tribunais brasileiros e do Ministério Público do Trabalho (MPT), as empresas contratantes são solidariamente responsáveis pela proteção do menor. Se a sua marca exibe a imagem de uma criança em uma publi sem alvará, você está fomentando o trabalho infantil irregular.
Além disso, as consequências legais são severas. O MPT pode instaurar inquéritos civis, aplicar multas pesadas e exigir a retirada imediata da campanha do ar. Todo o investimento em mídia, produção e tecnologia vai por água abaixo em questão de horas.
Ao mesmo tempo, vivemos a era da reputação digital. O tribunal da internet não perdoa marcas que aparentam explorar crianças visando o lucro. O dano à imagem da sua empresa, frente aos investidores e aos consumidores, é um passivo impossível de ser mensurado apenas em planilhas financeiras.
Entendido o risco, é hora de estruturar a solução. O processo de emissão do alvará judicial para menores em publis não acontece do dia para a noite. Ele é minucioso justamente porque o juiz precisa ter certeza de que o trabalho não prejudicará o desenvolvimento, a saúde e os estudos da criança.
Abaixo, detalhamos as etapas que a sua empresa e a família do menor precisarão percorrer. É fundamental que as suas equipes de projetos incorporem esse tempo de trâmite no cronograma das campanhas.
O juiz não concede um “alvará em branco” para a criança fazer qualquer coisa. A autorização é sempre vinculada a um trabalho específico, com condições muito bem delimitadas. Portanto, o primeiro passo é ter clareza absoluta sobre o que será exigido do menor.
Sua agência ou plataforma precisa redigir uma minuta de contrato de prestação de serviços e licenciamento de imagem. Esse documento deve detalhar quantas horas de gravação serão necessárias, onde ocorrerão (na casa da criança, em um estúdio?), qual é o cachê e qual a vigência da campanha.
É vital que as condições de trabalho respeitem a condição peculiar de desenvolvimento do menor. Gravações noturnas, madrugadas adentro, ou roteiros que exponham a criança a situações vexatórias ou perigosas serão sumariamente barrados pela Justiça.
Com a minuta do contrato em mãos, a família do menor, auxiliada por uma assessoria jurídica especializada, precisará reunir uma série de documentos probatórios. O objetivo dessa etapa é provar ao Estado que a criança tem uma vida saudável e estruturada fora da internet.
A lista de documentos costuma variar levemente a depender do estado e da comarca, mas geralmente envolve:
Vale lembrar que, se a criança estiver com notas baixas ou faltas excessivas na escola, o juiz provavelmente negará o pedido. A educação vem sempre em primeiro lugar.

Com o dossiê completo, os advogados darão entrada no pedido de alvará de forma eletrônica, direcionando a petição para a Vara da Infância e da Juventude da comarca onde a criança reside. Não é a comarca sede da sua empresa de tecnologia, e sim onde o menor mora.
É neste momento que a representação por advogados qualificados faz toda a diferença. Uma petição inicial bem fundamentada, que cite as portarias locais corretas e demonstre transparência sobre a carga horária e o cachê, tem tramitação muito mais ágil.
Na NDM Advogados, por exemplo, nós mapeamos previamente as exigências específicas de cada Tribunal de Justiça. Isso evita que o processo fique paralisado por exigências formais ou pedidos de emenda à petição inicial, garantindo que o seu cronograma de marketing não sofra atrasos irremediáveis.
Uma vez que o processo é distribuído, ele não vai direto para a mesa do juiz. O Estatuto da Criança e do Adolescente exige a intervenção obrigatória do Ministério Público em qualquer causa que envolva interesses de menores.
O Promotor de Justiça atuará como o fiscal da lei (“custos legis”). Ele analisará o contrato, verificará se o cachê é justo, conferirá as notas escolares e avaliará se a carga horária de gravações conflita com o horário de aula ou de descanso da criança.
Se o Promotor encontrar alguma inconsistência, ele pedirá adequações. É comum que o Ministério Público exija que o dinheiro recebido pela publi não vá integralmente para os pais, o que nos leva a um dos pontos mais críticos para fintechs e empresas contratantes.
Um dos grandes mitos da creator economy infantil é que os pais são “donos” do dinheiro que os filhos ganham. A lei brasileira discorda frontalmente disso. Os pais são administradores, mas o patrimônio pertence ao menor.
Na grande maioria dos casos de concessão de alvará judicial para menores em publis, os juízes e promotores determinam que uma porcentagem do cachê (geralmente entre 50% e 100%, a depender da finalidade) seja depositada em uma conta poupança em nome da criança, vinculada ao juízo.
Isso significa que a sua plataforma ou o seu departamento financeiro não poderá simplesmente fazer um PIX para a conta corrente da mãe do influenciador. Vocês precisarão de um comprovante de depósito nessa conta específica, cujo dinheiro só poderá ser sacado quando a criança completar 18 anos ou para necessidades exclusivas dela, mediante nova autorização do juiz.

Após o parecer do Ministério Público, o juiz profere a decisão. Sendo favorável, o alvará é expedido. Esse documento oficializa que a campanha está autorizada nos exatos termos que foram apresentados no processo.
Com o alvará em mãos, a sua empresa pode finalmente iniciar as gravações, enviar os produtos e aprovar as publicações. É fundamental que a agência ou plataforma arquive esse alvará judicial junto com o contrato do influenciador, como prova de conformidade legal (“compliance”) para eventuais auditorias.
Se a campanha mudar de escopo radicalmente – por exemplo, se decidirem transformar um vídeo simples do TikTok em uma viagem internacional para gravar um documentário da marca -, um novo pedido de alvará precisará ser feito. O documento não tem validade universal.
Se você é um empresário integrando inteligência artificial e processos automatizados no seu negócio, deve estar se perguntando: como escalar o marketing de influência com tantas travas jurídicas? A resposta está em usar a tecnologia a favor do compliance.
Plataformas modernas de gestão de creators já estão utilizando algoritmos para identificar a idade aparente do influenciador no momento do cadastro. Se o sistema detecta que se trata de um menor de idade, a IA pode travar automaticamente a esteira de contratação.
A partir desse bloqueio automatizado, a plataforma só libera a emissão do contrato e o gateway de pagamento após a equipe jurídica fazer o upload do alvará judicial validado. Isso tira a pressão do analista de marketing júnior, que poderia cometer um erro por pressa, e insere um controle sistêmico inquebrável.
Além disso, fintechs e plataformas de split de pagamentos (divisão de receitas) podem criar soluções de “escrow” (conta garantia). Elas podem automatizar a divisão do cachê, enviando 50% para a conta vinculada do menor e 50% para a conta de gestão dos pais, conforme determinado pela sentença do juiz, tudo via API.
Por mais sofisticada que seja a sua inteligência artificial, processos judiciais demandam conhecimento técnico, relacionamento com os tribunais e capacidade de argumentação humana. Tentar resolver a liberação de menores de forma caseira ou delegar essa responsabilidade inteiramente aos pais do influenciador é um risco altíssimo.
Muitas vezes, as famílias dos influenciadores não têm estrutura ou conhecimento jurídico para dar entrada em um pedido de alvará. Quando a sua agência ou plataforma oferece esse suporte ou exige que ele seja feito por profissionais qualificados, vocês aceleram o processo e protegem a campanha.
Nós, da NDM Advogados, oferecemos o serviço especializado de pedido judicial de alvará. Atendemos agências, marcas de alcance nacional e plataformas de tecnologia, conduzindo todo o processo de forma ágil. Entendemos a urgência dos cronogramas de marketing e alinhamos a velocidade do digital com a segurança necessária perante o Poder Judiciário.

A presença de menores de idade revolucionou a forma como as marcas se comunicam com o público. O engajamento é real, as vendas são agressivas e o retorno sobre o investimento costuma ser excelente. No entanto, inovação sem segurança jurídica é apenas um passivo aguardando para ser cobrado.
O alvará judicial para menores em publis não é um obstáculo ao crescimento da sua agência ou plataforma; ele é o atestado de que a sua empresa atua com governança, ética corporativa e respeito às leis de proteção infantil. Estruturar fluxos internos que garantam essa etapa antes da assinatura de qualquer contrato demonstra maturidade empresarial.
Se o seu negócio está crescendo no ecossistema da creator economy, não deixe a sua principal campanha nas mãos da sorte. Integre o compliance jurídico aos seus processos tecnológicos. E lembre-se: conte com a NDM Advogados para desburocratizar e blindar as suas contratações de influenciadores mirins.
A lei não proíbe que os pais arquem com os custos, mas, no mercado, é prática comum e recomendada que a agência ou a marca contratante forneça ou subsidie o suporte jurídico. Isso garante celeridade ao cronograma da campanha e certeza de que o documento será expedido corretamente.
O prazo varia muito conforme o estado e o volume de trabalho da Vara da Infância local. Em média, um processo bem instruído e com a documentação impecável pode levar de 15 a 45 dias. Por isso, a antecedência no planejamento da campanha é vital.
Não. Como regra geral, o alvará é concedido para um trabalho específico, pois o juiz precisa avaliar as condições daquela campanha exata (cachê, horas de gravação, roteiro). Algumas comarcas até emitem alvarás mais amplos para representação em agências, mas para campanhas publicitárias de peso, a especificidade é exigida.
Se a marca enviou o produto com exigência de postagem, roteiro, inserção de link ou prazo (configurando prestação de serviço em troca do produto de valor econômico), o Ministério Público e o Judiciário tendem a classificar a prática como trabalho artístico. Nesses casos, o alvará é recomendável para evitar passivos.
Apenas se o juiz autorizar expressamente no alvará. Na esmagadora maioria das vezes, o Judiciário exige que uma parcela significativa do cachê seja depositada em uma conta poupança em nome da criança, vinculada ao juízo, para proteger o patrimônio do menor.
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