Prevenção de fraudes na Copa 2026: Como fintechs podem evitar responsabilidade e proteger usuários


Escrito por Luiza Queiroz, advogada especialista em compliance financeiro para fintechs e empresas do setor financeiro na NDM Advogados.
Desde 2014 oferecemos assessoria jurídica completa para empresas tech crescerem com segurança e poderem focar no que importa.
Atualizado em 25/06/2026
A Copa do Mundo de 2026 promete ser um dos maiores eventos esportivos da história, movimentando bilhões de dólares em ingressos, turismo, consumo e apostas esportivas. Para o torcedor, é o momento de celebrar. Para o ecossistema financeiro e de meios de pagamento, é um teste de fogo.
O aumento exponencial no volume de transações digitais traz consigo um efeito colateral inevitável: a explosão de ataques cibernéticos e engenharia social. Criminosos aproveitam a urgência e o apelo emocional do evento para aplicar golpes cada vez mais sofisticados, mirando as plataformas que processam esses pagamentos.
O que poucos percebem é que, quando o usuário cai em um golpe, a conta financeira e reputacional frequentemente recai sobre a instituição de pagamento. Por isso, a prevenção de fraudes em fintechs deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma exigência regulatória estrita e uma questão de sobrevivência jurídica para os negócios.
Grandes eventos atuam como catalisadores para a criminalidade digital. Durante a Copa, já existe a expectativa de um pico na criação de sites falsos de venda de ingressos, pacotes de viagens clonados e, principalmente, manipulação em plataformas de apostas e promoções inexistentes.
Nesse cenário, a engenharia social reina absoluta. O fraudador raramente precisa hackear a infraestrutura blindada de um banco; na prática, ele “hackeia” o comportamento do usuário, convencendo-o a realizar transferências voluntárias e instantâneas via Pix ou a compartilhar tokens de acesso.
Ao mesmo tempo, as próprias empresas de tecnologia se tornam alvos. A interceptação de boletos, o sequestro de dados (ransomware) e o redirecionamento de pagamentos aumentam o risco sistêmico, colocando a segurança corporativa no centro do debate estratégico.
As regras do jogo regulatório no Brasil mudaram radicalmente nos últimos anos. Não basta mais à instituição de pagamento alegar que a culpa pelo golpe foi exclusiva do usuário por ele ter sido desatento ou enganado. Na prática, o ecossistema jurídico e regulatório entende que a segurança é um pilar do serviço prestado.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por meio da Súmula 479, pacificou o entendimento de que falhas sistêmicas e fraudes cometidas por terceiros configuram o chamado “fortuito interno”. Isso significa que o risco de fraudes é inerente à própria atividade bancária e de pagamentos. Somado a isso, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) impõe a responsabilidade objetiva: a empresa responde pelos danos independentemente de ter agido com dolo ou culpa, bastando a comprovação da falha na segurança.
Além do Judiciário, o Banco Central do Brasil (BCB) tem endurecido a regulação preventivamente. O foco do regulador deixou de ser apenas a solidez financeira das startups para focar de forma obstinada na proteção sistêmica contra crimes cibernéticos e lavagem de dinheiro.
Para estruturar uma prevenção de fraudes em fintechs que afaste a responsabilização jurídica, os fundadores e diretores precisam garantir o cumprimento de diretrizes rigorosas, com destaque para:
Em resumo, a falta de um sistema robusto de prevenção e a demora na aplicação de controles geram multas severas pelo Banco Central. Mais do que isso, pavimentam o caminho para a responsabilização direta da plataforma na Justiça, que rotineiramente obriga a empresa a ressarcir a vítima com o próprio caixa.
Dentro do ecossistema do Pix, o principal instrumento regulatório e operacional contra golpes é o Mecanismo Especial de Devolução (MED). Criado pelo Banco Central, o MED foi desenhado exclusivamente para facilitar a devolução de valores em casos de suspeita fundada de fraude, golpe ou falha operacional no sistema das instituições.
Vale destacar que o MED não é um “seguro arrependimento”. Ele não se aplica a desacordos comerciais – por exemplo, quando o usuário compra uma camisa da seleção para a Copa 2026, o produto chega com defeito e ele tenta cancelar o Pix. A ferramenta é estritamente voltada para a criminalidade financeira e anomalias sistêmicas.
Para as fintechs, o grande desafio do MED é tecnológico. A plataforma precisa estar integrada e arquitetada para responder a prazos extremamente curtos. Abaixo, detalhamos a jornada de acionamento do MED e as responsabilidades da instituição em cada etapa:
O que poucos percebem é o risco oculto nessas etapas. Se a instituição recebedora não possuir processos e sistemas adequados para tratar comunicações de fraude com a agilidade esperada pelo regulador, aumenta significativamente o risco de questionamentos regulatórios e de responsabilização judicial em casos de prejuízo ao usuário.
Em determinadas circunstâncias, a demora injustificada na adoção das medidas previstas pelo ecossistema Pix pode ser considerada pelo Judiciário como indício de falha na prestação do serviço, especialmente quando houver perda da oportunidade de bloqueio dos recursos.

Para mitigar esses riscos e afastar a responsabilidade direta, as empresas precisam adotar uma postura extremamente ativa. A integração de Inteligência Artificial para análise comportamental tornou-se o padrão ouro esperado pelo mercado e, silenciosamente, cobrado pelos reguladores.
Abaixo, detalhamos a diferença entre uma operação exposta aos riscos da Copa 2026 e uma plataforma verdadeiramente preparada:
| Abordagem de Segurança | Ferramentas e Processos Utilizados | Impacto na Responsabilidade Regulatória e Jurídica |
| Reativa (Alta Exposição) | Análise manual de disputas, autenticação por senha simples, bloqueio apenas após denúncia no SAC. | Alto risco. A plataforma é facilmente responsabilizada judicialmente por omissão e falha de segurança. |
| Proativa (Alta Proteção) | Biometria comportamental, IA para análise de anomalias transacionais, bloqueio cautelar automático. | Baixo risco. Produz provas de diligência e demonstra compliance total com as resoluções do BCB. |
A tabela evidencia que a automação e a tecnologia de ponta são as principais aliadas da gestão de risco legal. Ao investir em uma arquitetura de proteção ativa, a fintech constrói provas materiais rastreáveis de que cumpriu o seu dever regulatório de segurança, dificultando substancialmente condenações em tribunais.
Para garantir a efetividade da prevenção de fraudes em fintechs, a liderança técnica, de produto e jurídica deve estruturar suas defesas de forma totalmente integrada. Não basta assinar um software de IA de prateleira; é preciso alinhar a tecnologia com os processos internos e a blindagem jurídica adequada.
A seguir, detalhamos o fluxo operacional e tecnológico necessário para proteger a sua base de usuários e eximir a sua startup de responsabilidades civis e administrativas durante o pico de transações da Copa:
Ao executar essas cinco etapas com rigor, a instituição financeira transforma a sua área de compliance de um centro de custos para um escudo robusto de proteção. O investimento pesado em infraestrutura cessa de ser apenas um gasto operacional para se tornar a garantia de viabilidade e valuation do negócio.

Por outro lado, a inovação em pagamentos e a fluidez do serviço não podem parar por medo de fraudadores. A Copa de 2026 será uma janela gigantesca de escalabilidade, processamento de volume e aquisição de clientes para startups de finanças e tecnologia.
Em resumo, o sucesso do seu modelo de negócio dependerá de como a empresa equilibra uma experiência de usuário (UX) excelente com barreiras de segurança implacáveis nos bastidores. A prevenção de fraudes em fintechs não é um obstáculo tecnológico, mas um trunfo estratégico que une tecnologia de ponta e adequação regulatória.
Aos empresários, founders e diretores, o recado é direto: não esperem o volume de transações explodir para testar a resiliência de seus sistemas perante a Justiça. Revisar os termos de uso, os SLAs de integração e os protocolos internos de resposta a incidentes, sempre amparados por uma assessoria jurídica especializada no setor digital, é a melhor defesa para o futuro do seu negócio.
A fintech pode ser responsabilizada se o usuário transferir dinheiro por livre e espontânea vontade para um site de apostas falso?
Sim. Mesmo em casos de engenharia social, se a plataforma falhar em emitir alertas adequados, não possuir monitoramento ativo para bloqueio de contas laranjas ou atrasar o acionamento de mecanismos como o MED, a Justiça pode entender que houve falha na segurança sistêmica e responsabilizar a instituição.
O que o Banco Central espera das plataformas em termos de compliance e segurança?
Através de resoluções como a Resolução BCB nº 501 e diretrizes conjuntas do CMN (Conselho Monetário Nacional), o regulador exige políticas sólidas de segurança cibernética, monitoramento contínuo de riscos operacionais, respostas ágeis a incidentes e intercâmbio de informações sobre indícios de fraude entre as instituições.
O que significa “fricção positiva” no combate a golpes digitais?
Fricção positiva é a inserção intencional de uma camada extra de segurança (como um reconhecimento facial súbito ou confirmação em dois fatores) antes de efetivar transações consideradas atípicas ou de alto risco. Ela adiciona segundos ao processo, mas salva o patrimônio do cliente e exime a empresa de culpa.
Como a Inteligência Artificial ajuda a afastar a responsabilidade jurídica das startups?
Ao utilizar IA, a fintech gera logs e relatórios incontestáveis provando que operou de forma diligente e que o sistema estava apto a bloquear operações anormais. Caso a fraude ocorra fora dos padrões previsíveis, essas informações geram “provas de diligência” fundamentais para a defesa técnica nos tribunais.

Estamos prontos para ajudar sua startup a crescer. Agende uma consulta e saiba mais!
Estamos prontos para ajudar seu negócio a crescer. Agende uma consulta e saiba mais!